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NOTA DE RECOMENDAÇÃO SOBRE O PROGRAMA TBC DEBATE: “ideologia de gênero”

NOTA OFICIAL DA ALIANÇA NACIONAL LGBTI+

No dia 23 de fevereiro de 2021, às 19:30, foi transmitido o programa TBC Debates no veículo TV Brasil Central Agência Brasil Central (ABC) com a temática sobre Ideologia de Gênero, com a chamada “Você concorda com a ideologia de gênero?”1. De início, é preciso identificar que a TV Brasil Central é uma emissora de televisão brasileira, de autarquia do Governo do Estado de Goiás, sendo afiliada à TV Cultura. Esse canal de comunicação tem a finalidade de promover informações de qualidade para as pessoas, o que de fato não ocorreu na programação supracitada.

O programa TBC Debates, comandado por Rafael Vasconcelos, assim como outros programas televisivos, tem buscado apresentar temas controversos e atuais para que “debatedores” possam dialogar sobre. Vale frisar que no site da ABC é exposta a dinâmica do debate onde “dois convidados especiais vão defender os seus pontos de vista, que geralmente são opostos.”2.

Sobre a temática proposta no programa do dia 22 de fevereiro de 2021, o apresentador Rafael apresentou inicialmente que a discussão seria realizada por “dois debatedores que têm profundidade para falar sobre esse assunto”. Entretanto, ao longo do debate ficou perceptível que as falas de ambos debatedores e, em determinados momentos, do apresentador, não possuem embasamento/fundamentação, além de profundidade, para discutir sobre a temática, o que contradiz a exposição realizada no início do programa

Mesmo que seja um tema polêmico, pauta desses tipos de programas, entendemos que há falhas na escolha dos debatedores, pois ao buscar as biografias dos mesmos, Gustavo Gayer e Antônio Leal, não foi possível identificar relação com a temática em questão. Ademais, os posicionamentos de ambas as partes são carregadas de achismos, sem aporte teórico e científico, com falas que induzem a confusão e/ou associação de que pessoas que estudam e defendem a igualdade e equidade para todas as pessoas independente de gênero, identidade de gênero e sexualidade, com a falácia “ideologia de gênero”, além da utilização de terminologias que não condizem com o tema, tal como o termo “opção sexual” e a inexistência do termo gênero, exposto nas falas.

Tais posicionamentos corroboram para reforçar os estigmas sociais sobre as diversas questões que abordam a temática de Gênero e Sexualidade, sobretudo levantando uma temática que já tem sido julgada e enterrada pelo Supremo Tribunal Federal3. A forma com que foi tratado o tema auxilia ou auxiliaria para que a falácia “ideologia de gênero” seja novamente colocada em pauta, alimentando discursos negativos e de ódio. Além de, indiretamente, subsidiar os posicionamentos das pessoas de que existe uma “ideologia de gênero” (sic).

Foi ressaltado por um dos debatedores, em especial o Gustavo Gayer, que “existem cursos na faculdade de ideologia de gênero, existem cursos que as pessoas formam em ideologia de gênero aqui no Brasil”. Coloca também que “é a ideia mais perversa, mais maléfica, já concebida na história da humanidade, porque ela pode fazer com que crianças, a destruição do intelecto, do cognitivo, da personalidade, da autoidentidade que ela causa em crianças é uma coisa que nunca se viu na história da humanidade”4. Porém, a ideia da “ideologia de gênero” não e nunca foi uma pauta “existente entre os grupos aos quais ela foi atribuída” (Reis, 2020), mas sim uma pauta que foi criada e está sendo instituída por grupos conservadores e tradicionais, como forma de manipular a opinião de pessoas que não possuem senso crítico.

Ponderamos que realmente a falácia “ideologia de gênero” pode ser uma “ideia perversa”, especialmente no sentido de uma construção de um ideário que não existe, que colabora para que as pessoas não sejam compreendidas quanto às suas identidades e que tenta culpabilizar os grupos que estudam e investigam sobre gênero e sexualidade. Essa que tem relação com as Teorias de Gênero e Sexualidade, defendida por diversos autores e autoras como Simone de Beauvoir, Joan Scott e Judith Butler, que discutem reflexiva e criticamente sobre as estruturas hierárquicas que colaboram para influenciar sobre os comportamentos e tratamento às pessoas de acordo com o gênero e sexualidade, e que nada têm a ver com “ideologia de gênero”. Novamente reafirmamos que a construção dessa perspectiva falaciosa sobre a “ideologia de gênero” visa à opressão de classe, gênero e sexualidade, defendida ou comentada por grupos políticos e religiosos.

Observamos que quando citada a autora Simone de Beauvoir, em especial a parte que aponta a frase emblemática “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, há uma certa divergência interpretativa do que o debatedor Gayer aponta para o que a autora realmente defende. Apontamos a fala de Gayer: “[..] quer dizer que seu filho não nasceu homem, sua filha não nasceu mulher, eles se tornaram, você não tem interferência nisso, é a sociedade, é a opressão, é o sistema patriarcal […]”. Nessa fala verificamos a falha interpretativa e falta de entendimento sobre a teoria defendia por Beauvoir, sobretudo porque a autora aponta que há uma relação, compulsoriamente, entre sexo, gênero, sexualidade e sociedade, ou seja, na sociedade já existe uma estrutura estruturante de como devem ser os comportamentos das pessoas em consonância com as prerrogativas instituídas de acordo com o sexo, fato também ilustrado e discutido por Pierre Bourdieu na obra “A Dominação Masculina”. Limitamos ao termo sexo, pois entendemos que o órgão genital, uma das formas primárias de identificação do ser, define as condutas. De forma exemplificativa, a sociedade, desde os períodos remotos como na Idade Média, determina quais são os comportamentos do homem e da mulher, onde o homem deve ser valente, agressivo, defensor, progenitor, enquanto a mulher deve ser submissa, delicada, “do lar”, etc.

Para além dessas informações apresentadas no programa, existem outras que mostram a falta de conhecimento e confusão sobre a temática de todos os envolvidos na bancada. Se o debate visa o diálogo sobre pontos de vistas distintos, acreditamos que o ideal e necessário seja colocar pessoas com conhecimentos e produções sobre, uma vez que programas televisivos colaboram ou influenciam sobre o entendimento das pessoas sobre si e sobre as coisas. O momento deveria ser de aprendizado com informações fundamentadas, para que as pessoas que assistem o programa consigam, de forma crítica e reflexiva, pensar sobre o assunto, situação que não ocorreu no programa em questão. Assim, solicitamos que seja retirado o vídeo das plataformas da TV Brasil Central, visto ser um desserviço para a sociedade, além do compromisso por parte da emissora em levar pessoas conhecedoras sobre a temática (Teorias de Gênero e Sexualidade) para dialogar em alguma programação que seja em horário nobre, tal como o horário do TBC Debate.

24 de fevereiro de 2021

Toni Reis
Diretor Presidente da Aliança Nacional LGBTI+

Gregory Rodrigues Roque de Souza
Coordenador Nacional de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+

Thiago Camargo Iwamoto
Doutor em Educação Física pela UnB – Universidade de Brasília
Voluntário da Aliança Nacional LGBTI+

Fabian Algarte da Silva
Coordenador Nacional da Área de Homens Trans e Transmasculinidades

1 https://www.youtube.com/watch?v=RV5zGcAwErg
2 https://www.abc.go.gov.br/noticias/estreia-primeiro-tbc-debate-vai-discutir-polariza%C3%A7%C3%A3o-na-pol%C3%ADtica-nacional.html
3 https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/stf-por-decisao-unanime-enterra-ideologia-de-genero/
4 Fala do debatedor Gustavo Gayer.

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