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Carta aberta de Toni Reis a Sikêra Jr.

Carta aberta de Toni Reis a Sikêra Jr.

Sabe Sikêra, suas lágrimas no programa Alerta Nacional (https://youtu.be/A5gcKgSGUtU) me sensibilizaram muito, até porque me considero uma pessoa altruísta e empática.

Sikêra, você é um apresentador simpático, rico – afirmou que ganha pelo menos R$ 500 mil por mês, você diz que é cristão, você tem 55 anos. Você se comunica bem com a faixa de pessoas que concordam com seu pensamento. Você poderia inclusive estar substituindo o Faustão, que também recebeu em 2009 uma carta aberta minha nos mesmos moldes que esta (https://www.mundomais.com.br/noticias/2009/06/noticia-612-no-domingao). Você realmente é trabalhador, afirma que começou a trabalhar aos 14 anos. 

Tem família, a esposa Laura e os filhos Siqueira Neto, Larissa, Viviane e Henrique. Nós também temos família e nós respeitamos os 196 tipos de família que o estudioso alemão Petzhold descreveu.

Você é uma pessoa muito conhecida no Brasil. É muito amigo de alguns políticos influentes em nosso país.

Fui assistir programas seus, para saber mais. Você tem desenvoltura de quem está entre amigos e gosta do que faz. Você é um profissional da comunicação.

Eu sou do tempo antigo, em que nós escrevíamos cartas. Sou Toni Reis. Tenho minhas origens no interior do Paraná. Nasci em Coronel Vivida. Me criei em Pato Branco e Quedas do Iguaçu. Eu como você, Sikêra, comecei a trabalhar cedo, em Pato Branco, como picolézeiro e engraxate, aos nove anos de idade.  Ainda adolescente fui estagiário da Caixa Econômica Federal (uma das empresas que ainda mantém o patrocínio do seu programa) e depois fui vendedor da Casa Pernambucanas, lá trabalhei dois anos e fui campeão de vendas. Aos 19 anos vim morar em Curitiba para fugir do preconceito. Depois, tive a oportunidade de morar na Europa por quatro anos, na Espanha, na Itália, na França e na Inglaterra. Na Inglaterra, encontrei uma pessoa maravilhosa, que é o David. Estamos casados há 32 anos, reconhecidos como casal por todas as autoridades brasileiras e britânicas. Sou formado em Letras e também em Pedagogia. Sou especialista em Sexualidade Humana e também em Dinâmica dos Grupos (resolução de conflitos). Sou mestre em Filosofia e doutor em Educação, pós-doutor em Educação pela Unisinos, pesquisando sobre as leis da educação, e estou fazendo outro pós-doutorado em Educação sobre Vygotsky, o que possibilita entender como desenvolver diálogo com pessoas com pensamento, ações e opiniões diferentes da minha. 

Estou escrevendo para você pelas suas lágrimas. Você sabia que nós gays, lésbicas, bissexuais travestis, pessoas trans e não bináries na Idade Média éramos queimados na fogueira. Inclusive, para seu conhecimento, 30 pessoas LGBTI+ brasileiras foram queimadas na fogueira pela Santa Inquisição, segundo estudos do Prof. Dr. Luiz Mott, e mais de quatro mil foram condenadas por serem LGBTI+. Até 1824 éramos considerados criminosos. E até 17 de maio de 1990 éramos considerados doentes, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças, código 302.0. Só para atualizar você, Sikêra, passei agora em agosto 10 dias em Copenhague, na Dinamarca, como convidado de um encontro sobre direitos humanos, no qual foi exposto que ainda há 80 países que consideram crime ser LGBTI+, 12 deles têm pena de morte, dos quais seis executam as pessoas LGBTI+.

Eu dediquei um dia inteiro assistindo alguns vídeos de você falando sobre a minha pessoa como gay e sobre a comunidade à qual pertenço. Você nos chamou de desgraçados, raça maldita, que é uma pena que o pai não pode matar o filho viado, que somos nojentos. (https://youtu.be/XsYUtsUW2-U / https://youtu.be/Llc1DCdKVOE).

Por causa disso, você perdeu o patrocínio de 160 empresas e em breve poderá perder mais 23. 

Sikêra, quero dizer que você é formador de opinião e você trabalha numa rede de televisão que é uma concessão pública, isso o coloca em uma posição de grande destaque.

Para seu conhecimento, Sikêra, perdi sete anos da minha adolescência e juventude buscando a cura de ser gay, por causa de atitudes como essas, na Igreja Católica, na Evangélica, no centro de religiões de matriz africana, fazendo simpatia. Eu também chorei muito nesse período. 

Hoje, não choro mais, sou feliz sendo gay, com meu esposo temos três filhos, Alyson (20 anos), Jéssica (18 anos) e Filipe (16 anos), tudo na forma da lei. Demorou sete anos para realizar o sonho de sermos pais. Tivemos que ir até o Supremo Tribunal Federal. Alyson foi decisão do ministro Marco Aurélio; Jéssica e Filipe da ministra Carmen Lúcia. Você afirma que não reproduzimos. Você sabia que no Brasil tem 34 mil crianças e adolescentes em abrigos, dos quais 5040 estão totalmente prontos para adoção, resultado do abandono de reprodutores heterossexuais? Sikêra, temos que fazer uma conscientização para que alguns reprodutores heterossexuais não abandonem os filhos. 

Pesquisa que coordenei no Brasil, que foi realizada concomitantemente em outros 7 países (www.grupodignidade.org.br/wp-content/uploads/2016/03/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf) mostrou que 73% da nossa comunidade sofreu bullying e discriminação no meio educacional simplesmente por ser o que é, 36% foram agredidos/as fisicamente e 60% se sentiam inseguros/as na escola no último ano por serem LGBTI+.  Quando você nos chama de desgraçados, raça maldita, nojentos e nos objetifica dizendo que somos “coisas”, você está referendando esses dados e dando elementos para as demais crianças e adolescentes continuarem fazendo isso com os estudantes LGBTI+.

Você sabia que há 40 anos o Grupo Gay da Bahia faz um levantamento anual dos assassinatos e mortes violentas de pessoas LGBTI+ no Brasil? Em torno de 300 pessoas LGBTI+ são assassinadas todo ano no Brasil, com requintes de crueldade. 

Sikêra, uma coisa que aprendi na minha vida é que quando uma piada machuca e discrimina alguém, ela é crime, porque desumaniza.

Você com certeza não matou nenhuma pessoa LGBTI+, mas você com suas generalizações a nosso respeito, nos chamando de desgraçados, raça maldita, nojentos, você afiou a faca dos assassinos. Não é mi mi mi, as pessoas LGBTI+ estão sendo mortas, agredidas e muitas estão se suicidando.

Eu até concordo que no Brasil e no mundo tem pessoas do mal em todos os lugares. Tem pastores assassinos. Tem padres pedófilos. Tem apresentadores corruptos. Tem lésbicas assassinas. Tem gays ladrões. Mas será que eu posso generalizar e dizer que todos são assim? E você infelizmente generalizou. Você agrediu 10% da população brasileira que é LGBTI+, nossos familiares e nossos aliados, que agora – segundo pesquisas de opinião – são aproximadamente 63% da população que nos apoiam. 

É por isso que 160 empresas retiraram o patrocínio do seu programa, porque a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos, e nossa Constituição Federal estabelece que todos são iguais sem distinção de qualquer natureza e têm direito a igual proteção da lei.

Sikêra, infelizmente tenho uma má notícia para você, mas também uma boa. A má notícia é que você perderá todos os processos na justiça, pode até ganhar uma liminar aqui ou acolá, mas desde 2019, disseminar o ódio contra pessoas LGBTI+ é crime no Brasil. Foi isso que você fez e contra isso não há como recorrer. Os Sleeping Giants não estão sozinhos.  https://youtu.be/HWrRYJXNoeA  A maioria das redes, ONGs e coletivos apoia  a atitude deles, inclusive nós da Aliança Nacional LGBTI+, da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas e do Grupo Dignidade. Além do que, eles estão respaldados pela decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou que atos LGBTIfóbicos são um tipo de racismo e puníveis como tal. Eles não estão sozinhos.

O discurso de ódio e a desinformação serão enfrentados com o rigor da lei, e nós estaremos em todas as instâncias da justiça, porque eu, como você Sikêra, acredito na justiça brasileira, e também nos tratados e nas convenções internacionais dos quais o Brasil é signatário. 

Como você é cristão, queria relembrá-lo o versículo de Mateus 7:1: “não julgueis para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados”. E também Coríntios 13:1-8, “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, eu não seria nada.”

A boa notícia, parafraseando Chico Xavier, não importa o que você fez no passado, reconheça o erro e a partir de agora não faça mais isso. Também, de alguma maneira, Confúcio, Buda e Jesus Cristo todos falaram a mesma coisa: Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você.

Sikêra, você não precisa aceitar gay, lésbica, travesti, pessoa trans, mulheres, negros… Você respeitando já está de bom tom. Tente reparar esse seu erro. Sugiro para você a leitura do livro de Marshall Rosenberg, intitulado Comunicação Não-Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos  pessoais e profissionais.

Vamos dialogando, que tudo ficará bem, se cumprirmos a Constituição Federal, as decisões do STF, e principalmente se tivermos ética e um bom programa de compliance e transparência. Acreditamos em um país que prevaleça o diálogo, respeito e a integridade. É nisso que construímos nossas ações, espero que reveja algumas de suas posições e torne sua fala mais acolhedora, dialógica e reflexiva para nossa comunidade. 

Toni Reis, 57 anos, católico apostólico romano. Casado com David há 32 anos. Pais do Alyson (20 anos), da Jéssica (18 anos) e do Filipe (16 anos). Formado em Letras (UFPR) e em Pedagogia (Uninter). Especialista em Sexualidade Humana (Universidade Tuiuti do Paraná). Formação em Dinâmica de Grupo (SBDG). Mestre em Filosofia (Universidade Gama Filho). Doutor em Educação (Universidad de la Empresa, Uruguai). Pós-doutor em Educação (Unisinos) e pós-doutorando em Educação UFPR).

Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas

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